HRJL: O guardião da saúde em Picos?


de Denilson Pereirah

A cidade de Picos é a maior em economia e população do centro-sul do Piauí, isso é assunto batido. Mas o que muitos não sabem é que nosso município se desenvolveu bastante em algumas áreas, como educação e comércio, e estagnou em outras. Em todo o país a saúde pública não vai bem. Em algumas cidades o estado é de emergência, abandono, desrespeito com o cidadão. Mas enquanto as melhorias não surgem, é obrigação de o gestor público fazer o melhor com o que se tem e tentar dá o mínimo de humanização aos milhares de cidadãos que necessitam deste serviço.

Um ano após assumir a direção do Hospital Regional Justino Luz, o maior da região e que atende, segundo a Secretaria de Saúde do Estado do Piauí, cinquenta municípios da grande Picos, o médico José Airton Bezerra admitiu o que a maioria daqueles que já tentaram utilizar os serviços do centro de saúde já sabiam: “a infraestrutura [do hospital] é arcaica, obsoleta”.

Desde 1977, o “Justino Luz” foi construído nos moldes de hospital de campanha. Sua vida útil seria de, no máximo, dez anos. Hoje tem mais de trinta anos e o mesmo problema dos hospitais da capital: não há resolução de problemas, o atendimento é deficitário e faltam profissionais assim como estrutura para que estes possam atuar.
Médico José Airton Bezerra, diretor geral do Hospital Regional Justino Luz.
 Uma mão de tinta ali, a mudança de um móvel aqui e algumas alterações significativas vão sendo realizadas com o que se tem, mas não é só a decoração e o ambiente que mudaram após o médico José Airton assumir a direção do “Justino Luz”. Do mesmo partido do governador do estado e pré-candidato a prefeitura de Monsenhor Hipólito, José Airton utiliza sua influência e habilidade política para resolver alguns problemas sem a necessidade de desgaste com a equipe hospitalar e população.

Na gestão passada, por exemplo, a média de pacientes encaminhados à capital Teresina por mês era de 60 pessoas, hoje, após o termo de ajuste de conduta firmado entre funcionários e a direção do hospital, esse número passou para 15. “Não temos uma infraestrutura hospitalar com a capacidade de resolver problemas de traumatismo do crânio e da coluna, como também alguns eventos cardiológicos”, explica Bezerra.

O diretor afirma ainda que o “Justino Luz” trabalha “na sua máxima do que é permitido”. Um exemplo óbvio seria a sistema de plantão que gera um dos maiores índices de reclamações do centro médico. Segundo José Airton, há carência de profissionais e a média de plantonista seria de oito profissionais por turno, mas isso não acontece. “O hospital [regional] ainda é o grande guardião da saúde em Picos.”, justifica.

Dados
Um dos grandes problemas do HRJL está diretamente ligado à quantidade de acidentes registrados na cidade. A maioria com motociclistas.  Em 2011*, entre acidente envolvendo carros, motos e bicicletas, o centro médico realizou mais de 800 procedimentos. Como já dito, só acidentados com motocicletas foram registrados mais de 690 atendimentos.

Ainda sobre a correlação do trânsito com o HRJL, um dado assusta: dos mais de 800 condutores, mais da metade não possuíam carteira de habilitação no momento do acidente.

A unidade semi-intensiva funciona como intensiva e não é homologada pelo Ministério da Saúde. São seis leitos e os gastos por cada paciente internado por dia ultrapassam três mil reais. Ao todo, são atendidas mais de cinco mil pessoas em procedimentos de urgência e emergência para 160 leitos de internação.

*Dados colhidos no Sistema de Trânsito VS do Hospital Regional Justino Luz.

Quem busca o HRJL?
Dona Lúcia dos Santos tem 57 anos, casada. É mãe de quatro filhos. Três já se casaram. O marido dela está internado no HRJL, fraturou a perna. Há alguns dias, com rachaduras pelos calcanhares, Lúcia procurou o HRJL para “tomar uma injeção” que pudesse sanar a dor e estancar o sangramento dos pés.

Seu cadastro chegou a ser efetuado, um médico a observou vagamente, mas ela não pode dar prosseguimento e nem tomou a sonhada “injeção” que segundo ela “alivia a dor por uns dois dias”. O motivo? Havia outros casos que necessitavam de atenção maior. Essa é uma das diretrizes do Sistema Único de Saúde, dar preferência a quem mais precisa.
Dona Lúcia dos Santos, hipertensa, mas conformada.

O diretor José Airton explica que a confusão no atendimento começa justamente no processo muitas vezes omitido nos postos de saúde de cada bairro. Ora, sem atendimento nos PSFs, a população vai ao único local onde tem (ao menos em tese!) médicos 24h por dia. “Todo mundo que chega aqui passa por um acolhimento. Se for urgência ou emergência é encaminhada. Se não é orientado a procurar o posto de saúde mais próximo de sua casa”, justifica.

Enquanto isso, Dona Lúcia espera que as coisas melhorem, sua febre baixe, seus pés parem de sangrar. “Eu sou pobre e tenho calma. Mas é uma calma que me deixa preocupada. Não é fácil. Eu preciso do atendimento e não é todo dia que a gente tem dinheiro pra comprar remédio.”, conforma-se a também hipertensa Dona Lúcia. 

Novo Hospital de Picos
Em março de 2010, o então secretário de Saúde do Estado e hoje deputado federal, Assis Carvalho, anunciava a construção de um novo hospital em Picos. A obra, intitulada de “Centro de Referência Médica de Picos” iria atender meio milhão de pessoas e sessenta cidade circunvizinhas. Na época, a proposta de trabalho era em conjunto com outro centro médico, a Policlínica especializada, investimento alto da ONG alemã Pró-Brasil e apadrinhada politicamente pela então articulista política, hoje deputada estadual, Belê Medeiros.
Centro de Referência Médica de Picos, a promessa.

Segundo a Secretaria de Saúde do Estado, o “Novo Hospital” teria 284 leitos - sendo 260 de enfermaria e 24 leitos de UTI neonatal, pediátrica e adulto -, quatro salas de parto normal, central de processamento de resíduos, auditório com 150 lugares, refeitório, biblioteca e toda a estrutura de um hospital escola.

O investimento inicial de 30 milhões de reais, financiado pelo Governo federal e estadual, parece ter ficado pelo caminho. Quem passa frente às obras localizadas no bairro “Paraibina”, zona leste da cidade, se depara com mais um elefante branco. Um dos muitos que nossa cidade e políticos, insistem em criar. 

E já que não se pode contar com um elefante branco, melhor improvisar com uma raposa velha...